A palavra do dia 16 de dezembro foi Malabares
Por Gabriela Ramos Rosa
Já me deixei ser malabares nas mãos de alguns.
Do céu ao chão em segundos.
Deslizei por peles escorregadias, em nada cuidadosas.
Quebrei a cara, muitas vezes, áspero asfalto.
O frio na barriga de quando se está no alto, voando, não compensa.
Encontrei uma rede de proteção. Uma mão que me tem segura.
E assim, hoje sim, me sinto verdadeiramente no céu.
................................................
Cristina Ancona Lopez
Saia com várias mulheres. Algumas, dizia ele, não sabiam conversar, mas por serem bonitas, pele viçosa, corpo gostoso, saia com elas e se deliciava passando a mão nas peles macias, nos seios firmes, abraçando os corpos quentes, penetrando as carnes.
Era assim ele.
Outras, comentava, faziam-lhe bem para a mente e o espírito, acompanhavam seu pensamento, ajudavam a desenvolver suas idéias, faziam-no rir. Uma ou outra desse tipo, descobria ele, também tinha a pele macia, seios firmes, corpo quente e lhe despertava o desejo de penetrar as carnes. Mesmo assim, não deixava de sair com as primeiras.
Era assim ele.
Às vezes se atrapalhava, ligava para uma pensando ser outra e quando ia ao encontro percebia o erro. Com o tempo, confundia todas e então escolhia ao léu. Não se importava quem fosse, desde que tivesse alguma ao seu lado. Havia alguns dias em que, querendo apenas conversar confundia-se e chamava uma daquelas que não conversavam, ou vice versa. O jeito era conformar-se com a que fosse, com a que viesse.
Era assim ele.
Passou a ter tantas que teve de aperfeiçoar suas táticas para fazer com que cada uma acreditasse ser a única. Caso contrário, começariam a lhe negar as carnes.
Foi então que descobriu-se artista. Metódico, perfeccionista, malabarista, divertindo-se com seu próprio poder de sedução, de estratégia e de equilíbrio.
Era assim ele.
Até que os anos se somaram, o cansaço se instalou e cansou-se daquele tipo de vida. Não tinha mais vontade de sair, não sabia mais penetrar as carnes e já não enxergava direito. Procurou então as que sabiam conversar mas já haviam todas encontrado seus pares. Lembrou-se da prima que dizia: cuidado, não vai sobrar nenhuma! Mas não deu o braço a torcer e conformou-se. Passou a viver de recordações. Com um sorriso nos lábios deixava o olhar perdido e só pensava no tempo em que fazia, das mulheres, seus malabares.
Era assim ele.
.................................................................
Mari de Almeida
Estava olhando os meninos no semáforo, enquanto era vermelho.
Pequenos, mirrados, cheios de um nada que a vida lhes dá.
Jogam bolas para o alto, equilibram objetos,
fingem-se mágicos a esconder tiras de papel sujo entre os dedos.
Como estarão suas vidas quando eu voltar a parar ali, na semana que vem,
no ano que virá, na próxima década?
Do que, afinal, tanto riem se é na sarjeta que plantam seus sonhos?
Desculpem-me se sou sentimental, mas não consigo burlar a sensação de impotência,
a desesperança e o desejo ingênuo de que tudo mude, que o Natal traga o novo, como milagre.
Que a miséria seja vencida e que os malabares transformem-se em meros brinquedos, a ornar uma feliz infância.
Desculpem-me se não consigo ficar... e avanço o sinal.
Escrito por Cris-Cléo-Val-Mari-Gabi-Edu às 19h14
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|