A palavra do dia 04 de novembro foi Debutante
Por Cristina Ancona Lopez
E então o moço me segurava com braços fortes e eu me abandonava ao vai da musica, ele me conduzindo eu seguindo sua condução firme, e rodopiávamos, redondo, forte, sorrindo sempre, lembro a sensação ímpar de, com ele, rodopiar. Nunca houve igual.
E então dançávamos de rosto colado só quem namorava podia e nos agarrávamos a cada oportunidade de ficar sozinhos, abraços escondidos, nos escuros, nos becos, no carro, beijos que duravam horas sem cansar.
E então me lembro das cartas e bilhetes carinhosos, da musica que compôs para mim e da rosa que chegava todos os meses, a cada mês uma a mais até que aos três anos de namoro recebi três dúzias e depois não mais.
E então vez em quando ainda o vejo, um aniversário, uma noite de autógrafos, um enterro, um senhor, cintura alta, nunca jeans, ainda as mãos bonitas e ainda o sorriso é o do menino que ficou lá atrás.
E então não foi com ele que debutei a entrega total, a paixão louca, o casamento que já acabou, os filhos com quem vida nova a cada dia, os amores fortes e completos que vieram e se foram, a vida que vem e que vai e o meu novo estar no mundo como pessoa curiosa e sempre renovada.
Mas com ele e só com ele fui debutante. Como só naquele tempo se debutava.
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Por Sylvia Loeb
Feinha, magrinha, branquela, cabelo desbotado e ralo, peitinho encovado.
Um dia ele olhou pra ela, no outro também. Começaram a andar juntos, não falavam muito, tímida que era, feia que se sentia.
Feinho, magro, escuro, cabelo ruim. Olhou para ela e ela pra ele. Começaram a sair juntos, pouco falavam, faltava assunto.
Um dia debutaram, um dentro do outro, muito gostoso.
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Por Cléo Araújo
Os canais de televisão - todos os três que pegavam em Marília - passavam notícias sobre a coisa mais terrível e improvável que eu já tinha visto na TV ao longo de meus quase quinze anos de vida: um país do qual eu nunca havia ouvido falar antes - um tal de Kuwait - havia sido invadido pelo Iraque (esse sim eu já conhecia por causa do Sadam). O problema, pelo que entendia, era petróleo. Mais o excesso do que a falta dele. E então uma guerra havia começado - uma guerra de verdade, com soldados, tanques e mísseis (até então a única guerra que eu havia presenciado tinha sido a Fria, que não contava com esse tipo de cenário cinematográfico, onde todos os projéteis pareciam ser verde-cintilantes). A situação se agravou quando os Estados Unidos resolveram comprar a briga e defender o tal Kuwait. Eu simplesmente não conseguia entender o que é que os Estados Unidos tinham a ver com aquilo tudo, mas meu chute era que era culpa do petróleo. Eram "Scuds" e "Patriots" sendo lançados de um lado para o outro, perdia o sono ao pensar na possibilidade daquela se transformar na Terceira Guerra Mundial. A terceira e a última, segundo previa Nostradamus.
Mas o meu problema não era esse. Meu problema era que eu nunca havia beijado ninguém na boca.
Já tinha dado uns selinhos brincando de "salada de fruta". Mas agora eu era mulher, queria beijar de verdade, se possível de língua. E a coisa não era tão simples quanto parecia. Aliás, não parecia simples coisa nenhuma. Não era lá a menina mais bonita da turma, não era nem muito alta, nem muito arredondada. Sempre achei que tivesse um certo charme, mas não me achava bonita. Para mim, eu era simplesmente magra e cabeluda.
Era assim, a vida, antes do meu debu.
Medo do fim do mundo, vontade de beijar de língua e inveja de cabelo liso.
Ah, e eu tinha, sim, um sonho: queria ter nascido no Rio de Janeiro.
Nunca entendi o porquê.
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Por Gabriela Ramos Rosa
Aos 15 anos eu não era ninguém.
Não sei se hoje, aos 37, já posso me considerar alguém.
A verdade é que a gente nunca pára de crescer.
E mesmo quando morre, mesmo que bem velhinho, ainda é uma soma de faltas.
Impossível conhecermos o mundo inteiro, ler todos os livros que existem, assistir a todos os filmes, cantar todas as músicas.
Inviável abarcar o antigo, o novo, tudo, nesta velocidade vertiginosa em que a nossa existência passa.
Seremos sempre incompletos, imaturos aqui e ali, despreparados. Plenitude não se alcança, nunca.
Não fui debutante aos 15, não sou agora, não serei. Não estou pronta - nem pra mim, nem pra sociedade.
Mas já não tenho as aflições de menina assustada querendo rodopiar numa valsa nos braços do menino mais lindo do colégio.
Nunca quis, na verdade. O menino mais lindo do colégio nunca me olhou; uma valsa com ele, jamais!
Mas isso (e muito mais) hoje, não significa uma ruga em meu rosto, nem uma cicatriz profunda.
Hoje me sei e me gosto assim mesmo, incompleta. Ignorante de coisas que sequer passaram perto do meu quintal.
Cuido do pequeno jardim que me cerca, imenso pra mim, nadica pro mundo globalizado.
Eu gosto, e estou bem feliz com os meus girassóis.
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Por Sócrates Santana
As duas meninas estavam felizes. De frente da penteadeira, as sardas, as mechas louras e os dentes brancos esboçavam o contentamento com os anos que chegam. No quarto dos fundos (a senzala moderna) a filha da empregada brinca com as bonecas da filha do patrão. O pai abraça a filha, que corre eufórica pelo corredor, enquanto a mãe sorrir emocionada e arruma a filhinha para o baile. A empregada faz o mesmo, ajeitando os laços lilases no encrespado cabelo da debutante de quintal. As duas descem juntas as escadas. A filha do patrão na frente e a amiga dos fundos atrás segurando o véu. Após o cessar da música, os convidados estão exaustos de dançar e beber. Alguns bebem até demais, como o patrão, que arranca o vestido da filha da empregada na marra. Enquanto a filhinha do patrão está aos soluços no quarto do namorado, a filha da empregada chora silenciosamente no quarto dos fundos. No hospital, o anestesista prepara as agulhas, enquanto a enfermeira massageia a barriga da paciente. Na emergência, uma jovem morre de hemorragia, sem direito a atendimento.
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Por Mari de Almeida
Quando eu fizer meu baile de debutante vou convidar todos vocês.
Verdade! Aos 46 anos ainda não realizei o meu.
Quero debutar como pessoa melhor e mais inteira.
Ou como uma mulher madura que sabe bem o que quer.
Talvez também precise esperar pelo grande amor - acho que ainda não veio.
Se veio, deixei escapar, deixei perder-se de mim... coisas de menina boba.
Falta-me também debutar como mãe.
Embora o seja há 17 anos, ainda não sei bem como agir, o que falar, o que pensar.
Mas um dia eu aprendo, amadureço, abraço quem eu mereça.
Um dia coloco o vestido rodado, fico no centro da sala e começo o baile.
Por enquanto estou aqui, ainda menina, tentando dar passos simples - dois pra lá, dois pra cá - preparando-me
para outros tempos de tangos, rocks e até um bom samba de raiz.
Mas não demora, não, vocês receberão o convite...
Separem o traje, enquanto eu me aprendo e cresço aqui, no meio do salão.
Escrito por Cris-Cléo-Val-Mari-Gabi-Edu às 17h53
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