A palavra do dia 05 de novembro foi Profusão

 

Por Sócrates Santana

O que é o sertão? Uma fartura de mundo. O que é uma favela? Uma abundância. O que é um mendigo? Esbanjamento.  O que é uma feijoada? Um desperdício. E os livros? Uma profusão de idéias.

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Mari de Almeida

Como cabe tudo isto nestes 48 quilos distribuídos em 154 centímetros?

Uma profusão de idéias, de medos, de dúvidas, de desejo, de traumas, de encontros, de coragem, de tramas, de alegria, de malandragem, de crueldade, de paixão, de piedade, de preguiça, de má vontade, de energia, de camaradagem, de ousadia, de covardia...

Pequenos frascos sem fim.

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Por Cristina Ancona Lopez

Foi-se

o que abalou

sem transtornar

o que acrescentou

sem perguntar.

Deixou profusão

de sinceridade,

de amizade

de saudade.

 

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Por Sylvia Loeb

As nicotinas do mar têm cheiro de ostra.

Comi  maracujá e o sangue dele misturou com o meu.

O por do sol está melífluo.

Isso tudo ele disse para mim.

E mais isso:

Hoje tem miríades de alegria no seu sorriso.

Amo você inteira, exclusive essa pinta negra, e passou o dedo devagar por ela.

E mais isso ainda:

Seu olhar emana profusão de saudade.

 

Me entreguei.

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Por Gabriela Ramos Rosa

Ela respirava num ronco medonho.

Triste de ver que a morte lhe chegasse assim - a vida lhe negando ar, o essencial tão ao alcance.

O tempo se arrastava sofrido, no compassado de seu insistente e difícil respirar.

As lágrimas e orações enchiam o quarto. Não de esperança, de aceitação.

Ver a sua respiração cessar e sabê-la morta me impressionou.

Nada de violento ou feio, mas saber que naquele exato instante ela já não estava mais ali, me feriu.

Prometi que lembraria dela pensando na profusão de coisas boas que ela viveu e deixou.

Mas de noite, na dificuldade pra pegar no sono, me vinha seu rosto morto - ainda que sereno, eu o sabia revolto por a vida lhe negar ar.

 



Escrito por Cris-Cléo-Val-Mari-Gabi-Edu às 19h40
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A palavra do dia 04 de novembro foi Debutante

  

Por Cristina Ancona Lopez

E então o moço me segurava com braços fortes e eu me abandonava ao vai da musica, ele me conduzindo eu seguindo sua condução firme, e rodopiávamos, redondo, forte, sorrindo sempre, lembro a sensação ímpar de, com ele, rodopiar. Nunca houve igual.

E então dançávamos de rosto colado só quem namorava podia e nos agarrávamos a cada oportunidade de ficar sozinhos, abraços escondidos, nos escuros, nos becos, no carro, beijos que duravam horas sem cansar.

E então me lembro das cartas e bilhetes carinhosos, da musica que compôs para mim e da rosa que chegava todos os meses, a cada mês uma a mais até que aos três anos de namoro recebi três dúzias e depois não mais.

E então vez em quando ainda o vejo, um aniversário, uma noite de autógrafos, um enterro, um senhor, cintura alta, nunca jeans, ainda as mãos bonitas e ainda o sorriso é o do menino que ficou lá atrás.

E então não foi com ele que debutei a entrega total, a paixão louca, o casamento que já acabou, os filhos com quem vida nova a cada dia, os amores fortes e completos que vieram e se foram, a vida que vem e que vai e o meu novo estar no mundo como pessoa curiosa e sempre renovada.                                                                                                                                                                                                                                                                                  

Mas com ele e só com ele fui debutante. Como só naquele tempo se debutava.

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Por Sylvia Loeb

Feinha, magrinha, branquela, cabelo desbotado e ralo, peitinho encovado.

Um dia ele olhou pra ela, no outro também. Começaram a andar juntos, não falavam muito, tímida que era, feia que se sentia.

Feinho, magro, escuro, cabelo ruim. Olhou para ela e ela pra ele. Começaram a sair juntos, pouco falavam, faltava assunto.

Um dia debutaram, um dentro do outro, muito gostoso.

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 Por Cléo Araújo

Os canais de televisão - todos os três que pegavam em Marília - passavam notícias sobre a coisa mais terrível e improvável que eu já tinha visto na TV ao longo de meus quase quinze anos de vida: um país do qual eu nunca havia ouvido falar antes - um tal de Kuwait - havia sido invadido pelo Iraque (esse sim eu já conhecia por causa do Sadam). O problema, pelo que entendia, era petróleo. Mais o excesso do que a falta dele. E então uma guerra havia começado - uma guerra de verdade, com soldados, tanques e mísseis (até então a única guerra que eu havia presenciado tinha sido a Fria, que não contava com esse tipo de cenário cinematográfico, onde todos os projéteis pareciam ser verde-cintilantes). A situação se agravou quando os Estados Unidos resolveram comprar a briga e defender o tal Kuwait. Eu simplesmente não conseguia entender o que é que os Estados Unidos tinham a ver com aquilo tudo, mas meu chute era que era culpa do petróleo. Eram "Scuds" e "Patriots" sendo lançados de um lado para o outro, perdia o sono ao pensar na possibilidade daquela se transformar na Terceira Guerra Mundial. A terceira e a última, segundo previa Nostradamus.

Mas o meu problema não era esse. Meu problema era que eu nunca havia beijado ninguém na boca.

Já tinha dado uns selinhos brincando de "salada de fruta". Mas agora eu era mulher, queria beijar de verdade, se possível de língua. E a coisa não era tão simples quanto parecia. Aliás, não parecia simples coisa nenhuma. Não era lá a menina mais bonita da turma, não era nem muito alta, nem muito arredondada. Sempre achei que tivesse um certo charme, mas não me achava bonita. Para mim, eu era simplesmente magra e cabeluda.

Era assim, a vida, antes do meu debu.

Medo do fim do mundo, vontade de beijar de língua e inveja de cabelo liso.

Ah, e eu tinha, sim, um sonho: queria ter nascido no Rio de Janeiro.

Nunca entendi o porquê.

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Por Gabriela Ramos Rosa

Aos 15 anos eu não era ninguém.

Não sei se hoje, aos 37, já posso me considerar alguém.

A verdade é que a gente nunca pára de crescer.

E mesmo quando morre, mesmo que bem velhinho, ainda é uma soma de faltas.

Impossível conhecermos o mundo inteiro, ler todos os livros que existem, assistir a todos os filmes, cantar todas as músicas.

Inviável abarcar o antigo, o novo, tudo, nesta velocidade vertiginosa em que a nossa existência passa.

Seremos sempre incompletos, imaturos aqui e ali, despreparados. Plenitude não se alcança, nunca.

Não fui debutante aos 15, não sou agora, não serei. Não estou pronta - nem pra mim, nem pra sociedade.

Mas já não tenho as aflições de menina assustada querendo rodopiar numa valsa nos braços do menino mais lindo do colégio.

Nunca quis, na verdade. O menino mais lindo do colégio nunca me olhou; uma valsa com ele, jamais!

Mas isso (e muito mais) hoje, não significa uma ruga em meu rosto, nem uma cicatriz profunda.

Hoje me sei e me gosto assim mesmo, incompleta. Ignorante de coisas que sequer passaram perto do meu quintal.

Cuido do pequeno jardim que me cerca, imenso pra mim, nadica pro mundo globalizado.

Eu gosto, e estou bem feliz com os meus girassóis.

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Por Sócrates Santana

As duas meninas estavam felizes. De frente da penteadeira, as sardas, as mechas louras e os dentes brancos esboçavam o contentamento com os anos que chegam. No quarto dos fundos (a senzala moderna) a filha da empregada brinca com as bonecas da filha do patrão. O pai abraça a filha, que corre eufórica pelo corredor, enquanto a mãe sorrir emocionada e arruma a filhinha para o baile. A empregada faz o mesmo, ajeitando os laços lilases no encrespado cabelo da debutante de quintal. As duas descem juntas as escadas. A filha do patrão na frente e a amiga dos fundos atrás segurando o véu. Após o cessar da música, os convidados estão exaustos de dançar e beber. Alguns bebem até demais, como o patrão, que arranca o vestido da filha da empregada na marra. Enquanto a filhinha do patrão está aos soluços no quarto do namorado, a filha da empregada chora silenciosamente no quarto dos fundos. No hospital, o anestesista prepara as agulhas, enquanto a enfermeira massageia a barriga da paciente. Na emergência, uma jovem morre de hemorragia, sem direito a atendimento.      

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Por Mari de Almeida

Quando eu fizer meu baile de debutante vou convidar todos vocês.

Verdade! Aos 46 anos ainda não realizei o meu.

Quero debutar como pessoa melhor e mais inteira.

Ou como uma mulher madura que sabe bem o que quer.

Talvez também precise esperar pelo grande amor - acho que ainda não veio.

Se veio, deixei escapar, deixei perder-se de mim... coisas de menina boba.

Falta-me também debutar como mãe.

Embora o seja há 17 anos, ainda não sei bem como agir, o que falar, o que pensar.

Mas um dia eu aprendo, amadureço, abraço quem eu mereça.

Um dia coloco o vestido rodado, fico no centro da sala e começo o baile.

Por enquanto estou aqui, ainda menina, tentando dar passos simples - dois pra lá, dois pra cá - preparando-me

para outros tempos de tangos, rocks e até um bom samba de raiz.

Mas não demora, não, vocês receberão o convite...

Separem o traje, enquanto eu me aprendo e cresço aqui, no meio do salão.



Escrito por Cris-Cléo-Val-Mari-Gabi-Edu às 17h53
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A palavra do dia 02 de novembro foi, na verdade, uma frase:

"Meu problema é só de madrugada, de dia fico normal."

 

Por Sylvia Loeb

Temos 3 filhos lindos: João Antonio tem um probleminha de drogas, mas isso é passageiro. Conversa e canja de galinha, essa a receita. Infalível. Foi o psiquiatra do posto quem disse. Minha filha, Joana Maria, linda, quatorze anos, conversei, conversei, contei que ela ia ficar mocinha, precisava tomar cuidado, sabe o que estou dizendo? Já sei mãe. Assustei. Tem que tomar cuidado, já sei mãe, já sei. Assustei de novo. Há tres dias amanheceu grávida, chorou ela, chorei eu, meu marido pos a culpa em mim. Tá certo ele, quando alguma coisa não dá certo em casa a responsabilidade é da mãe. João Pedro, o caçula, lindo, lindo, o que me preocupa é quem vai cuidar dele quando eu morrer? É ingênuo demais, puro demais, Deus escolheu ele para uma missão de caridade no mundo, mas tem que ter alguém para cuidar dele. Minha vida é assim, rica de acontecimentos. Meu problema é de madrugada. Me dá um aperto na garganta, parece que alguma coisa quer sair mas não consegue, fica presa ali. Não quero acordar meu marido, fico nessa agonia, segurando nem sei o quê. Meu problema é só de madrugada, de dia fico normal.

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Por Mari Almeida

Enquanto à noite os gatos são pardos,
eu sou preguiça embolada no velho pijama esgarçado.
Enquanto uma mão lava a outra,
eu enxugo a alma nas toalhas tecidas nas teias
Enquanto mais vale um pássaro na mão do que dois voando
eu me jogo sem asas em aventuras sem pé e mula sem cabeça
Enquanto em casa de ferreiro o espeto é de pau
eu vivo numa cabana de algodão salpicada de lantejoulas.
Mas tudo isso é assim da meia-noite até o sol se fazer brilhar.
Porque meu problema é só de madrugada, de dia fico normal.

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Por Gabriela Ramos Rosa

Meu problema é só de madrugada, de dia fico normal.

Misturada à mediocridade nossa, ninguém há de notar.

Disfarce perfeito pra aquela que sou quando ninguém me vê, nem me imagina. E posso tudo. Posso eu.

Problema?

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Escrito por Cris-Cléo-Val-Mari-Gabi-Edu às 09h49
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A palavra do dia 01 de novembro foi Jornalista

Por Sylvia Loeb

Cão de guarda da sociedade, eticamente superior, o que o regia era o princípio da responsabilidade social. Compromisso com a verdade, lealdade com os leitores - cidadãos a quem devia respeito -  esses os valores que o pautavam. Submetido apenas à própria consciência, que lhe ditava os rumos a tomar, vigilante independente dos poderosos. Corajoso, destemido, temerário.

Virou trapezista.

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Por Sócrates Santana

-         Quem?
-         O jornalista!
-         O quê?
-         Não presta!
-         Como?!?
-         Não vale nada mesmo!
-         Quando?
-         O tempo todo!
-         Onde?
-         No Brasil!
-         Por quê?

Faz parte da profissão!

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Por Gabriela Ramos Rosa

Era tão árido e quente que remetia à descrição do inferno que tinha ouvido desde a infância.
A boca já ia mais que seca, começava a amargar. O estômago se retorcia - medo, fome, desespero.
Os rostos negros e maltratados, de olhos já sem vida, íris turvas e murchas. Falta de tudo.
Crianças miúdas feito apêndices, bonecas macilentas caminhando pro inerte, o desfalecer.
A morte à espreita. A vida às moscas, ao abandono, aos olhos fechados de Deus.
A matéria emocionaria, ganharia prêmio, rodaria o mundo. Era preciso mostrar, gritar, acordar aos homens.
O idealismo deu lugar a um cansaço doído, um nó sofrido de impossível desatar.
E o jornalista, mudo, chorou.

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Por Cristina Ancona Lopez

Eu vi um morro que não era mais morro e não consegui ver as casas que havia embaixo. Disseram que eram 3 e mais  duas revendedoras de automóvel, que não estavam mais lá. Só vi a terra e os tratores que tentavam remover tudo.
Não sei aonde eram os caminhos nem se havia quintal ou jardim. Não sei se o morro despencou de dia ou de noite. Só vi o lamaçal, alto, denso, escorregadio, parecendo ter vida.
Parei e olhei. Vidas acabadas, trabalho destruído, tudo virou ontem. Para a frente só o recomeçar de quem continua, sem o que ficou para trás, sem quem ficou para trás.
Estive lá. Chorei, de que adianta... Fiz pouco, podia fazer mais... Vi gente fazendo muito, gente mais gente do que eu.
Fiquei pequena demais.
Estou soterrada pelas inúmeras coisas desnecessárias que tenho em casa e pelos meus sentimentos que teimam em desmoronar perante as intempéries da vida.
Voltei
Nem escrever sobre isto sei. Fosse jornalista, saberia?

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Por Mari de Almeida

Ele queria dar só boas notícias.
Sonhava em mudar o mundo.
Mas viveu "na marrom", perdeu rumos.
Achava-se Deus e escrevia como o Diabo.
E saiu estampado em manchetes.
"Matou amante e voltou à redação."

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Escrito por Cris-Cléo-Val-Mari-Gabi-Edu às 21h10
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