A palavra do dia 28 de novembro foi Alumbramento

Por Sylvia Loeb

Na terra negra e escura, a semente é introduzida. Noites e dias se alternam em claro e escuro, em umidade e deserto, frio e fogo. Animais acostumados a viver nas trevas emanam sucos e calores e se aproximam dessa coisa que começa a germinar, que se move em contrações vagarosas  de expansão e retração, sístole e diástole. Respira. A força penetra, percorre o caminho que vai romper a carne, a terra, em deslumbramento com a vida que se fez por milagre!

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Por Gabriela Ramos Rosa

Alumbramento é bom.
Estado de bobeira constante, risada frouxa, espírito leve.
Coisa de criança inocente que a gente perde porque a vida toma. À força.
É voltar a ter esperança, acreditar em história de amor que dá certo, alma gêmea e casa de cerca branca de comercial de margarina.
Até chorar à toa porque é muito bom pra ser verdade.
Descobrir que dá certo, que tem aquele alguém com quem você sempre sonhou.
Aposentar a dúvida e deixar vir uma pontinha de satisfação por achar sim que, enfim, você merece tudo isso. E mais.
É bom, é muito bom.
E sigo alumbrada achando que talvez Poliana pudesse ter alguma razão.

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Por Mari de Almeida

Queria definir-te, e há 28 anos.
Desde que por mim passaste e deixaste um beijo.
De lá para cá, penso-te vez ou outra,
e não esqueço de teus olhos verdes,
tuas mãos calejadas, mas dóceis,
teu sorriso gentil e tuas faces vermelhas.
Menino em tamanho de homem,
homem em alma de menino.
Foste meu primeiro suor frio,
o coração a bater descompassado,
o tremor nas mãos a tomar as pernas.
Sim, achei-te em uma definição!
Foste meu primeiro alumbramento.

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Por Sócrates Santana

Na terra negra e escura, a semente é introduzida. Noites e dias se alternam em claro e escuro, em umidade e deserto, frio e fogo. Animais acostumados a viver nas trevas emanam sucos e calores e se aproximam dessa coisa que começa a germinar, que se move em contrações vagarosas de expansão e retração, sístole e diástole. Respira. A força penetra, percorre o caminho que vai romper a carne, a terra, em deslumbramento com a vida que se fez por milagre!



Escrito por Cris-Cléo-Val-Mari-Gabi-Edu às 15h53
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A palavra do dia 27 de novembro foi Derrame

Por Gabriela Ramos Rosa

Derrame sobre mim estas tuas palavras tépidas.
As que me embalam de noite, me fazem ter vontade de gargalhar.
Derrame aqui, em meu colo, a tua boca quente, teu toque molhado e manso.
O que me arrepia a nuca, me leva embora deste mundinho plástico.
Derrame teu olhar imenso no fundo de minha íris.
O que me revira, me sugere fagulhas coloridas salpicando o céu de minhas lembranças.
Derrame-se aqui. Que nunca mais quero existir sem você.

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Por Cristina Ancona Lopez

É um vexame quando a gente se derrama. Fica prostrada, derramada, aguada, sem forma, sem começo nem fim.
Eu me derramo. E pra me derramar, é só começar.
Quando a tristeza e a injustiça me tomam, se começo a chorar, é um dilúvio. Não consigo segurar nada dentro, não seguro, não aplaco, não me controlo.
Então extravaso, explodo, me esparramo pelo chão num derrame ininterrupto, de tristeza sem fim.

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Por Valéria Propato

Derrame pra mim era de flores, de sentimentos, de beijos, de água. Era excesso, abundância. Depois que você se foi pai, mudo, os olhos vivos no corpo incapaz... Derrame agora é seco, é último, é sem você.

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Por Mari Almeida

Senti que um lado não se movia.
Estava formigando, até perder movimentos.
O ir e vir,
O sorrir e chorar,
O dormir e acordar,
O amar e odiar,
O gozar...
O cantar...
O falar...
O perdoar...
O voltar.
Foi num derrame de mágoas,
naquela relação, antes tão viva,
que ficamos paralisados
e, assim, tudo morreu.



Escrito por Cris-Cléo-Val-Mari-Gabi-Edu às 16h59
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A palavra do dia 26 de novembro foi Relâmpago

Por Cristina Ancona Lopez

Há dias em que não chove, o ar está calmo, o céu azul. Mas é como se o céu estivesse cheio de relâmpagos. Acontecem coisas que não podemos segurar.
O mundo se contorce, luzes saindo para todos os lados.
Dá vontade de entrar debaixo da mesa.
Um dia entrei debaixo da mesa. Foi durante uma queimada. Já viu uma queimada?
Norte do Brasil, fazenda só mato, filha bebê.
Derrubada na foice, no facão, na moto-serra. Tudo para o chão. Verde caindo, barulho de árvore tombando. Depois silencio. O que tinha vida tombado no chão para secar.
Ate que chega o mês de agosto, mês da queimada. Acero para o fogo não passar para as fazendas vizinhas, todo mundo pronto, pessoal saindo para todos os lados da fazenda, tacar fogo!
Bebê no colo, olho da porta da cozinha.. Sobe densa e negra a fumaça do fogo. Barulho de estalos, fuligem começa a cair. Sentamos no degrau, olhos nostálgicos. Estamos queimando o mundo.
E então acontece, num repente. No meio do cinza surge uma fumaça que dá voltas, cada vez mais concêntricas e mais rápidas. Um rodamoinho, um funil que caminha para todos os lados e vem vindo meu Deus, para fora da queimada, para cima de nós. Vem vindo, não é possível, como? Vai sair de lá?
Mas vem e sai do mato e entra para o quintal e corro eu com bebê no colo para debaixo da mesa.
Barulho, vento zupt, zupt, zupt, barulho redondo, como explicar esse barulho? Passa pela casa. Sobre a mesa telhas e telhas se estilhaçando.
Depois silêncio.
Embaixo da mesa minha bebê e eu, incrédulas.
O rodamoinho passou. Destelhou metade da casa, tudo em cima da mesa... Saímos de gatinho ela diz óia, óia, óia, e eu penso: é a natureza que se revoltou.

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Por Gabriela Ramos Rosa

Chuva. E eu tomando desta água no corpo feito uma cura.
Porque me dispo e me mostro a carne assim, fervente.
O choque do gelado me acorda, acode. Respiro.
Um relâmpago distante mas bravio me incendeia. Estou viva.
E então que não preciso de nada em meus pés que me separe da grama molhada, do barro novo.
E não preciso de nada em minhas mãos que me distancie da minha pele acabada de nascer.
Me toco, me visto das águas e navego pelo Mediterrâneo que jorra em mim.
O sol vem depois. Mas já brilho.

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Por Sylvia Loeb

Num momento de tédio, Deus resolveu brincar com suas espadas.
Forjou-as em eletricidade, luz deslumbrosa e muito estrondo.
Já havia introduzido outros deuses nessas artes, que desde os tempos antes dos tempos padeciam de tédio e assim brincavam de martelos mágicos com que golpeavam corpos celestes produzindo explosões de som ensurdecedor. Tinham muito prazer nisso e brincavam até se cansarem.
Nesse momento de intenso tédio divino, Deus resolveu aperfeiçoar a arte das espadas e as tornou céleres, verdadeiros azougues que desembestavam do céu  num vôo vertiginoso de galope coruscante. Lançava-os sobre os mortais.
São as Espadas de Deus, assim chamadas por ele num átimo de intenso júbilo.

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Por Mari Almeida

Foi naquela tempestade,
depois de tantas dores ácidas,
que seus olhos secaram minhas feridas abertas.
O mel da íris curou meu passado manco
e deixou doce a esperança em novos tempos.
Sua passagem foi rápida, relâmpago a clarear meus dias 'anoitecidos'.
A luz penetrou as mais remotas emoções.
Foi tão depressa, tão de repente, tão especial,
que até hoje gosto quando a chuva rompe no horizonte,
para que voltes, como um raio, a me iluminar.



Escrito por Cris-Cléo-Val-Mari-Gabi-Edu às 11h06
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A palavra do dia 25 de novembro foi Circo

Por Sylvia Loeb

 

E as pessoas que voam no ar, os mágicos que tiram coelhos da cartola, os engolidores de fogo e espadas que não têm medo de se queimar, de se furar? E o mergulhador que do alto do espaço joga-se numa tina de água, e os leões amansados que abrem a boca dentro da qual o domador coloca a cabeça como num beijo impossível? O leão não tem mau hálito? E aquela mulher que entra dobrada em todas as juntas, dentro de uma mala, como se fosse feita de pedaços e  sai de lá inteira e não amassada? Não lhe dói nada? E aquele então que anda lá no alto, por uma corda esticada, se equilibrando num abismo sem fim, não tem medo de despencar? Aí tem os palhaços que se batem e caem o tempo todo, que jogam água uns nos outros e fazem brotar flores dos joelhos, ou dos cotovelos ou da cabeça.

Esse mundo existe?

Claro que sim, é aí que habito.

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Por Mari Almeida

A mulher barbada estava triste.

Sempre admirada pelo público,

dias desses ouviu, de um homem garboso,

uma frase- destrói -auto-estima: 'que horror você é!'

Ela até entendia que sua barba não a tornava, digamos, atraente.

Mas era dona de olhos reluzentes, um sorriso franco e uma alma simples.

Aquela fala a colocou de barbas de molho.

Resolveu, então, radicalizar.

Pediu demissão, comprou uma gilete nova e fez um 'barba-suicídio'.

Começou a freqüentar outros meios, onde havia tantos homens garbosos.

E logo foi assediada, nada mais nada menos do que pelo dono da frase que detonou toda essa mudança.

Passaram alguns dias juntos, trocando juras e falando de suas vidas.

Mas ela não se apaixonou, porque aquele homem, sem barba, tinha um sorriso amarelo e uma alma duvidosa.

Para todos que não o agradavam, compunha dizeres críticos e maldosos.

Ela se repensou. Olhou-se no espelho, ‘desbarbada’, e sentiu-se desnuda.

Não era isso, não podia ficar assim.

E voltou para o circo, ao emprego. Deixou a barba crescer e seu sorriso estampar-se de novo.

Essa história me faz pensar naquelas frases de efeito, de final de contos pra criança dormir.

Mas veja bem, porque ela tem todo sentido:

"no circo da vida, muitas vezes somos mulheres barbadas.

Basta uma frase masculina maldita pra gente se desacreditar,

pra perder a fé em nós mesmas, pra se perder e demorar a se achar".

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Por Gabriela Ramos Rosa

 

Coração nômade, artista de circo.

Na caravana nem sempre alegre, de muitos lugares, nenhuma parada.

Maquiagem impecável, profusão de lantejoulas, sorriso escancarado.

Bailarina, trapezista ou palhaço. Tombos, piruetas e risos, coração.

Nem sempre show, nem só brilho. Medo e falta. Queda e frio.

Na lona, coração.

O chão batido, a noite escura, a música retumbante. Altura e frio na barriga.

Dilacerado, coração.

Nenhuma estrela, sequer lembrança ou rastro de lua.

O tigre amuado, esquecido do feroz que é seu.

Aplauso nenhum, coração.

Respeitável público. Quem mesmo, que te quis?

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Por Cristina Ancona Lopez

Deitada na rede, sem vontade de viver.

A repetição da vida, os círculos viciosos, o desamor, a solidão, as tentativas frustradas, o coração abatido, a perda das esperanças...

Imersa em minhas tristezas não vi o carro que se aproximava. Quando me sentei já estava lá, rodando portão adentro. Pessoas estranhas, expressões bizarras, começaram a descarregar objetos grandes e coloridos, sem nada dizer.

Ei, quem são vocês, o que é isto?

Mais carros chegaram, mais caixas descarregaram. Armaram, martelaram, montaram, sem me dirigir palavra.

Por favor, não invadam assim a minha casa...

Nada disseram.

Estou cansada, quero dormir, por favor vão embora...

Nada.

Voltei para a rede, Cansei. Afinal, eu só queria mesmo era dormir. Deitei-me e adormeci, alheia ao que acontecia.

Acordei com a musica alta.
O circo estava armado.

Trapezistas, palhaços, equilibristas, todos ali, apresentando-se no meu jardim.

Meu coração foi até a boca quando a trapezista ficou preza por uma perna só, ri alto com a palhaçada daquele arlequim desajeitado, fiquei curiosa com a mágica diferente.

Porque estariam todos no meu jardim? Quem os havia enviado?

Levantei-me, guardei a rede e decidi voltar à vida.

Em algum lugar existe alguém que quer me ver feliz.

Em algum lugar existe alguém que gosta muito de mim.



Escrito por Cris-Cléo-Val-Mari-Gabi-Edu às 19h02
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A palavra do dia 24 de novembro foi Ampulheta

Por Sylvia Loeb

A areia escorria pela ampulheta, grão por grão, quase podia contá-los. Concentrava-se para que fluísse mais devagar; com a força do pensamento tinha certeza de que poderia retardar seu ritmo. Já tinha feito isso antes. Parara a chuva, fizera trovejar, transformou a noite em dia, a água em vinho.

Disso dependia sua vida, no último grão, expiraria.

A areia fina como pó de ouro parou de escorrer, a ampulheta guardou no vaso de cima o tempo que se recusou a passar.

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Por Mari Almeida

Por que você insiste nisso?

Fica aí a olhar esse troço antigo,

grãos de areia que caem, um pós outro.

Hora de rever seu jeito empoeirado de encarar a vida.

Modernize-se! Pregue na parede um digital hi-tech!

 

Gosto dessa coisa que me parece lenta.

Desse passar de horas como se eu ainda fosse o mesmo de ontem.

Gosto de me sentir Deus, de interromper o ciclo,

achar-me mágico, sem virar a ampulheta, brecando o tempo

e as rugas que inundam meu rosto, e os brancos fios de meus ralos cabelos.

Dou-me esse poder, o de não virar a ampulheta, o de não viver outras páginas,

o de não mais envelhecer.

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Por Gabriela Ramos Rosa

Grãos caindo lentos, tontos. Tanto e nenhum tempo.

Você foi e já volta. Um mês quase, algumas poucas horas. A vida pela frente.

E não te conto das horas vazias que tentei habitar de mim mesma pra não pender pro lado vazio da ampulheta.

O sentir despencar do mundo, escorrer pelo minúsculo vão envidraçado. Gangorra de minutos perdidos.

O tempo que é meu não me parece. Mas sinto alguns anos. Na pele, nos cãs que me invadem as têmporas.

Alguns me parecem irremediavelmente desperdiçados. E anseio por muitos – que não se percam por minúsculos grãos de areia.

Mas dos que não tive, a certeza dos que quero ter.

Falta pouco agora. Estou chegando. Espera.

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Por Cristina Ancona Lopez

Sentada na sala vazia olhava a chuva. Do vidro grande tinha a visão do gramado molhado e das gotas que pendiam dos arbustos de flores, mas não prestava atenção.

Com uma das mãos, distraída, re-iniciava o despejar da areia na ampulheta de vidro. E olhava a areia fina descendo pelo túnel estreito, durante um minuto. Virava a ampulheta e olhava de novo e de novo e de novo...

Assim, contava o tempo, minuto a minuto. Quem sabe na próxima virada...o que aconteceria? Quantos minutos seriam necessários para que alguma coisa acontecesse? Aconteceria alguma coisa se ela não fizesse nenhum movimento para isto além de girar a ampulheta com a mão? Seria real o fato de que os acontecimentos nos chegam mesmo que nada façamos? Seria real que só nos chega o que nos esforçamos para alcançar?

Resolveu marcar os minutos e a cada virada da ampulheta fazia um risco preto no caderno, formando quadrados de cinco riscos, um risco a cada minuto.

O dia foi correndo, o caderno cheio de quadrados de cinco riscos. Nada aconteceu, constatação a cada minuto, nada fez, esperou, constatou, girou a ampulheta... Apenas a mão girando ampulheta, a mão riscando o caderno, a mente sem nada pensar.

A chuva continuando, o silencio pesando, a mão virando a ampulheta, girando a ampulheta, olhando a ampulheta...



Escrito por Cris-Cléo-Val-Mari-Gabi-Edu às 19h50
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