Estamos atendendo em novo endereço!

Amigos do fim do dia,

Nosso blog mudou de casa.

Encontre-nos a partir de hoje em http://www.palavradofimdodia.blogspot.com/

Esperamos sua visita!



Escrito por Cris-Cléo-Val-Mari-Gabi-Edu às 15h50
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Queridos leitores amigos:

Que o Natal traga aquelas alegrias que fazem a gente se sentir criança de novo.

E que 2009 seja repleto de conquistas, muita criatividade e energia boa para superar o que tiver de ser vencido e celebrar cada gostosa vitória.

Entramos em férias e voltamos na segunda quinzena de janeiro, com novidades: o mesmo fim-do-dia, mas em novo endereço.

Pq para quem se ateve aqui... o layout está péssimo e não temos conseguido postar do jeito que nos agrada, mudanças realizadas pelo UOL...

Depois contamos que endereço será esse.

Um gde bj e até 2009!



Escrito por Cris-Cléo-Val-Mari-Gabi-Edu às 17h02
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A palavra do dia 17 de dezembro foi Vínculo

  

Por Cristina Ancona Lopez

 

Era desligada. Não se lembrava das datas, não usava relógio, não seguia as horas, vivia o dia conforme o instinto lhe levava, conforme as sensações lhe dirigiam. Porém, conseguia, com seu trabalho artístico, imprimir uma certa ordem em tudo, agir coerentemente dentre o aparente desleixo.

Não se importava com os dias da semana nem com os meses, mas estranhamente, tinha uma forte ligação com os sábados. Talvez porque tivesse nascido em um...

Os sábados lhe traziam boas recordações, chamavam-na para a vida, tomavam conta de sua cabeça impermanente. Os sábados tinham sentido, pensava, desde aquele em que partira dirigindo sozinha, musica alta, coração disparado, para encontrá-lo no meio da estrada. E quantos sábados passados com ele! Mesmo os que tinham sido domingos eram lembrados como sábados. Estranho como nada que demarcasse tempo, hora e lugar tinha importância. Mas com os sábados, mantinha um vínculo forte, que jamais seria quebrado.

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Por Sócrates Santana

 

Ainda preparo o café do mesmo jeito. É como um filme. Primeiro, o pó. A água quente. Em seguida a xícara. O açúcar e depois o leite em pó. Misturo açúcar e leite em pó. Encosto a colher no canto da xícara e faço na beira dela uma espécie de parede de açúcar e leite em pó. Entre a parede coloco o café quente, misturo. Coloco a colher molhada mais uma vez dentro da lata de leite ninho e deixo o leite grudar na colher para ela comer e beber depois. Nosso vínculo não perde o vinco. Não perde o leite, nem o açúcar, nem o café. Fica tudo metodicamente misturado. 

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Por Gabriela Ramos Rosa

Te sinto saído de meu umbigo, tamanho vínculo.

Quase acho que te dei à luz, que te criei aqui em meu ventre.

Porque a tua pele é minha; e o que penso, você sabe.

Eu não preciso dizer, você vê.

E esta dor que sinto quando você vai até ali parece arrancar de pedaço.

Sei que você não é meu, sou só, dona nem de mim mesma.

Mas tê-lo aqui, ao lado, me faz inteira.

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Por Mari de Almeida

Na minha face, teu sorriso.

Nos teus olhos, minhas lágrimas.

Em nossos corpos, as almas se trocam.

Nosso vínculo não perde o vinco,

nem tem data de validade.

Não solta as tiras, não parcela-se em vezes

nem paga-se com pré-datado.

Nosso vínculo é único, à vista e online.

E finca na vida um eterno começo.



Escrito por Cris-Cléo-Val-Mari-Gabi-Edu às 18h05
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A palavra do dia 16 de dezembro foi Malabares

 

Por Gabriela Ramos Rosa

Já me deixei ser malabares nas mãos de alguns.

Do céu ao chão em segundos.

Deslizei por peles escorregadias, em nada cuidadosas.

Quebrei a cara, muitas vezes, áspero asfalto.

O frio na barriga de quando se está no alto, voando, não compensa.

Encontrei uma rede de proteção. Uma mão que me tem segura.

E assim, hoje sim, me sinto verdadeiramente no céu.

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Cristina Ancona Lopez

Saia com várias mulheres. Algumas, dizia ele, não sabiam conversar, mas por serem bonitas, pele viçosa, corpo gostoso, saia com elas e se deliciava passando a mão nas peles macias, nos seios firmes, abraçando os corpos quentes, penetrando as carnes.

Era assim ele.

Outras, comentava, faziam-lhe bem para a mente e o espírito, acompanhavam seu pensamento, ajudavam a desenvolver suas idéias, faziam-no rir. Uma ou outra desse tipo, descobria ele, também tinha a pele macia, seios firmes, corpo quente e lhe despertava o desejo de penetrar as carnes. Mesmo assim, não deixava de sair com as primeiras.

Era assim ele.

Às vezes se atrapalhava, ligava para uma pensando ser outra e quando ia ao encontro percebia o erro. Com o tempo, confundia todas e então escolhia ao léu. Não se importava quem fosse, desde que tivesse alguma ao seu lado. Havia alguns dias em que, querendo apenas conversar confundia-se e chamava uma daquelas que não conversavam, ou vice versa. O jeito era conformar-se com a que fosse, com a que viesse.

Era assim ele.

Passou a ter tantas que teve de aperfeiçoar suas táticas para fazer com que cada uma acreditasse ser a única. Caso contrário, começariam a lhe negar as carnes.

Foi então que descobriu-se artista. Metódico, perfeccionista, malabarista, divertindo-se com seu próprio poder de sedução, de estratégia e de equilíbrio.

Era assim ele.

Até que os anos se somaram, o cansaço se instalou e cansou-se daquele tipo de vida. Não tinha mais vontade de sair, não sabia mais penetrar as carnes e já não enxergava direito. Procurou então as que sabiam conversar mas já haviam todas encontrado seus pares. Lembrou-se da prima que dizia: cuidado, não vai sobrar nenhuma! Mas não deu o braço a torcer e conformou-se. Passou a viver de recordações. Com um sorriso nos lábios deixava o olhar perdido e só pensava no tempo em que fazia, das mulheres, seus malabares.

Era assim ele.

 

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Mari de Almeida

Estava olhando os meninos no semáforo, enquanto era vermelho.

Pequenos, mirrados, cheios de um nada que a vida lhes dá.

Jogam bolas para o alto, equilibram objetos,

fingem-se mágicos a esconder tiras de papel sujo entre os dedos.

Como estarão suas vidas quando eu voltar a parar ali, na semana que vem,

no ano que virá, na próxima década?

Do que, afinal, tanto riem se é na sarjeta que plantam seus sonhos?

Desculpem-me se sou sentimental, mas não consigo burlar a sensação de impotência,

a desesperança e o desejo ingênuo de que tudo mude, que o Natal traga o novo, como milagre.

Que a miséria seja vencida e que os malabares transformem-se em meros brinquedos, a ornar uma feliz infância.

Desculpem-me se não consigo ficar... e avanço o sinal.



Escrito por Cris-Cléo-Val-Mari-Gabi-Edu às 19h14
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A palavra do dia 15 de dezembro foi Prímula

  

Sylvia Loeb

 

Estrela da tarde ou chave das portas do paraíso, assim é chamada. O óleo de suas sementes acalma o sangue das mulheres, a inquietação que toma suas almas e as dores de seus corpos, deixando-as mais doces, calmas, mais  receptivas ao macho. De seu bulbo nasce a prímula, as primeiras a florescerem com a chegada dos raios de sol. Elas são mágicas e  as preferidas das fadas e das abelhas. Enchem nossos corações de otimismo e alegria, só pelo fato de contemplá-las.

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Cristina Ancona Lopez

Chamam-se Prímulas algumas flores que nascem com a Primavera... e surgem viçosas e cheias de cor nessa estação do ano. Ontem mesmo vi uma prímula linda e florida. Linda. Parei para olhar. A beleza me penetrou, encantou meus olhos e me trouxe paz....

Mas não entendo como florescem as prímulas nesta primavera em que faz frio.

Houve tempo em que as estações começavam na época certa e cada uma tinha o seu tempo e a sua vez. Agora misturam-se, trocam de posição, cedem seus lugares umas às outras, não se entendem mais. No verão sentimos frio, no inverno compramos ventiladores de teto, na primavera não achamos grama verde para sentar.

Pensando bem, acontece o mesmo comigo: misturo-me, troco de posição, cedo lugar a novos pensamentos, não me entendo mais. No verão fujo do sol, no inverno procuro os raios que entram pela janela para me esquentar, na primavera esqueço-me das flores.

É assim.

Deve ser influência do por do sol e do nascer da lua...

Talvez quando o mundo estiver primavera, eu consiga me tornar colorida, plácida e bonita, espalhando cores e levando paz a quem estiver perto de mim.

Como a Prímula. Quem sabe?

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Por Sócrates Santana

Preciso falar com ela. Trata-se de uma criança. É fruto do nosso amor. É minha prima, mas quem nunca teve nada com parentes? Não vou deixar que ela tome a prímula. Ela guarda na barriga uma flor prestes a desabrochar. Um rosa, mas, que não é de hiroshima.

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Mari de Almeida

Naquele buquê não tinham rosas, nem margaridas.

Nem os lírios que olhamos no campo.

Naquele buquê cabiam apenas prímulas,

que pouca beleza têm, mas que exalam você.

E dão às feridas duras, de raiz forte e calcada,

a cura suave e lenta, para que se fechem as dores

por trás destes nossos olhos cansados.

É assim que começa a Primavera que hoje semeamos.

Neste buquê, plantado em seu sorriso-começar-de-novo,

regado por minhas lágrimas-até-que-a-vida-nos-separe

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Escrito por Cris-Cléo-Val-Mari-Gabi-Edu às 09h57
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A palavra do dia 12 de dezembro foi Gandaia 

Mari de Almeida

Bebeu todas, beijou bocas, deu amassos,

perdeu-se em braços fartos e pernas longas,

andou torta pela sarjeta reta,

escorou postes e pediu carona,

desfiou a meia, borrou o rímel e perdeu a bolsa,

passou batom fora da boca, falou alto

e cuspiu o caroço da azeitona.

Pediu o quinto gole num bar de quinta,

sorriu para o guarda, fez agrado no gato vira-lata.

Vomitou no pé de um passante,

deixou vencer o desodorante,

falou, falou até fazer rima.

Chorou com força sem qualquer motivo,

limpou com a unha o centro do umbigo,

comeu bala melada com papel e tudo.

Caiu na cama de um qualquer vagabundo,

transou com o otário de meia em motel barato,

saiu a pé para pegar o ônibus errado,

parou na esquina para acertar o sutiã do avesso.

Acordou linda, de memória fraca e pele reluzente.

Vestiu a blusa de seda e a saia de tecido fino,

passou perfume comprado com euros,

entrou no carro, total flex, 2.0 blindado.

E saiu ligeira a fazer de sua história um mero dia a dia,

até o próximo sábado...

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Cristina Ancona Lopez

Eu caía sim na gandaia! Dançava feito louca, bebia sem pensar, varava a noite, me perdia e vinha a me encontrar assistindo ao amanhecer conversando filosofias, abraçando amigos que seriam inesquecíveis para sempre, não me lembro quem...

Eu então, nem era, ou nem mesmo me lembro de mim.

Hoje prefiro a alegria à gandaia. Prefiro os poucos amigos próximos aos inúmeros passageiros. Prefiro a bebida moderada, só pra relaxar um pouco, prá brindar, pra compartilhar e cuido de mim como quem cuida de algo raro e delicado, me gosto e me presenteio como a quem merece mimos e, como não encontrei ainda quem cuide de mim como me sinto merecedora, cuido-me eu.

Porém ainda gosto (e como gosto!) de dançar, de rodopiar e de me entregar a paixões que realmente valham a pena e sejam correspondidas. Hoje, da gandaia resta-me a paixão que esta sim, merece ser bem vivida. Que se acabe, mas que me leve para a gandaia do amor, da entrega, do calor de tudo, do envolvimento completo. Que se transforme no amor para sempre apaixonado, aquele que não me canso de procurar, ou que morra em seguida, mas que tenha sido vivida intensamente nem que eu a sofra profundamente e que meu corpo e minha mente sejam tomados por uma ressaca total.

Que venha a gandaia. Depois dela, de um jeito ou de outro, eu cuido de mim.

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Sócrates Santana

Estava na Rua Chile, chinelo de dedo, cadência no andar

Passava uma linda menina, parecia desfile, tinha encanto no olhar

Rodava aquele vestido, não era vestido, fazia sentido, era fácil amar

Um homem casado, falido, eu era quase um mendigo, bola não ia me dá

Na Praça Tereza Batista, Olodum não estava, era a Banda Didá

A menina de pele macia era a minha vizinha, morava acima, bastava um andar

Na janela verde e amarela, sorriso tão branco, lembrava aquarela, era como sonhar

Azul, vermelho e branco era como o Bahia que entrava no ar

A Fonte estava lotada e aquela menina na frente a dançar

A torcida inteira gritava, inteira sambava, batendo palmas e o mundo inteiro a cantar

Vá, vá vá morena, vá, vá, vá morena

Caia na gandaiá, que o negô não pára de olhar

Vá, vá, vá morena, vá, vá, vá morena

caia na gandaia, que o samba não vai acabar

Vá, vá, vá morena  

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Sylvia Loeb

Estava louca para cair na gandaia, mas sem coragem. Então você me convidou, fiquei toda assanhada pensando nos detalhes. Meia arrastão daquelas bem abertas, sabe como é? Se der calor, areja. Sandálias altas, vermelhas para mim, e para você? Gandaia no capricho, na elegância, na classe. A gente poderia começar de manhã, de manhã mesmo quando estamos descansadas e cheias de energia. Ninguém vai acreditar! Duas moças caindo na gandaia logo cedo, na segunda feira. Uma caipirinha ou um rabo de galo para começar. Já tomou rabo de galo? Ajuda a soltar. Depois vamos dar uma volta, ao léu, vamos dar bola para os homens, vamos mexer com eles. Junto com você fico corajosa. O dia vai passar, a gente bebendo e rindo, muita risada lava por dentro, é melhor que chorar. Um sanduíche de mortadela num boteco qualquer; precisamos comer para não cair na rua; depois pipoca e pirulito de sobremesa. Adoro pirulito, nunca tenho coragem de chupar, mas no dia da gandaia, é no pirulito que eu vou! Depois sorvete, pilhas de sorvete de chocolate, de creme, de morango, vamos comer até ficar enjoadas! Que gandaia boa! Depois a gente toma coca-cola, pois acho que vamos ficar precisar. Litros de coca- cola, só em dia de gandaia! No final da tarde uma pizza, que tal? Será que tem pizzaria aberta na segunda feira? Acho que sim, nunca comi pizza na segunda feira. Vou comer uma inteira, sozinha. Desculpe, mas vou ter que comer sozinha. Se você quiser dividir, pedimos outra. Tudo regado a coca-cola é claro, ajuda. E assim acaba nossa noite, uma gandaia e tanto!

Obrigada pela força!

 



Escrito por Cris-Cléo-Val-Mari-Gabi-Edu às 19h17
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A palavra do dia 11 de dezembro foi Vaga-lume

 

Gabriela Ramos Rosa

As crianças prenderam o vaga-lume no vidro de maionese. Lanterna imaginária, brincadeira inocente.

E ele foi se apagando aos poucos, até morrer sem ar e sem brilho.

Os homens colocaram o sonho no vidro de maionese. Um projeto, grandes idéias, amor impossível. Metafóricos vaga-lumes.

Lembrete perverso do que a vida adulta talvez nunca traga.

Também se apagam aos poucos, sufocados.

E luz nenhuma da conta de vidas frustradas.

Nem de vaga-lume.

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Por Sócrates Santana

Vaga pela escuridão

Ilumina a noite sombria

Mochila nas costas

Andarilho lunático

Respira o luar

Tem inveja das estrelas

O sol é uma maldição

para o ego da madrugada

Adormece a alvorada

Vagabundo

Não é estrela

Não é lua

Não é sol

Vaga pela noite sombria

Ilumina a escuridão

Lanterna no matagal

Farol da onça pintada

Tem ciúme da lua

O sol é uma perdição

para o inseto das trevas

Um sonífero do amanhecer

Vagabundo

Não é estrela

Não é lua

Não é sol

Aparece no entardecer

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Sylvia Loeb

Feia que sempre foi, mirradinha e descorada, cor de terra crestada pelo sol. Os seios murcharam ainda em botão, as carnes jamais se fizeram apetitosas, restava-lhe andar pela vida sem cor nem alegria se Deus não tivesse se apiedado dela.

Deu-lhe dom especial, especialíssimo. De noite, luzia. Emitia luz verde ou azul, conforme o calor da noite, os calores do corpo. Os machos atarefados na caça noturna desviavam-se de seu caminho e vinham atrás de Luciferina e seus lampejos, assim batizada bem tarde na vida. Corria risco a Luciferina. Os machos alados a desejavam, assim como os predadores mais cruéis. Esse o destino de Luciferina, apagada de dia, quimera de noite.  

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Por Cristina Ancona Lopez

Apagou a luz mas não acalmava, alguma coisa incomodava.

Parecia uma luzinha, um pontinho brilhante, um alerta constante.

Como um vaga-lume, luz a piscar, a dizer sem parar:

presta atenção agora

é hora de olhar de fora,

hora de analisar, ponderar,

nada de deixar-se ir sem pensar.

Hora da análise,

colocar sentimentos em diálise,

retirar-se para reciclagem, decidir com coragem.

Hora de ser detalhista, realista,

objetivo, sintético, positivo,

hora de ser didático,

exigir-se prático, pragmático!

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Por Mari de Almeida

 

Nunca entendi como os vaga-lumes 'funcionam'.

Mas também, se li algo a respeito, apagou-se aqui, na minha falta de memória.

No entanto, fico admirada quando na estrada escura os pontinhos voadores reluzem, mostrando caminhos.

Queria ter idéias-vaga-lume, que acendessem nos meus becos sem saídas, portinhas claras.

Coisas assim, que relampejassem suaves, nada muito grandioso ou mágico.

Apenas golinhos de luz refrescantes, dando trégua às minhas pequenas dúvidas

que, todas juntas, formam uma nuvem negra de infinitos 'serás' e por quês.



Escrito por Cris-Cléo-Val-Mari-Gabi-Edu às 18h14
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A palavra do dia 10 de novembro foi Pragmático

 

Gabriela Ramos Rosa

Sei que sim, este meu pragmatismo todo apaga estrelas.

Eu tento, claro que sim. Até quero ver, me forço a enxergar.

Mas tem qualquer coisa aqui em mim, dura, que nega.

Estas coisas todas que, lindas e livres, dispensariam explicação e prova.

Eu procuro razões. Esmiúço, esfolo o sutil e misterioso. Eu duvido.

Não sei não, o porquê.

Sou uma pessoa estranha, eu acho.

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Por Mari de Almeida

 

Era tão pragmática, tão pragmática

que escolheu os dias para nascer, ficar louca e morrer.

Depois que nada disso deu certo, tudo aconteceu ao contrário

desistiu de acreditar na ordem das coisas e nas listas de espera.

Parou de fazer check in, check out ou cheque pré-datado.

Soltou os cabelos, armou a barraca e fincou pés em lugar nenhum.

E a partir daí, que surpresa!, começou a ser feliz.

Completamente louca, mas feliz.

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Por Sylvia Loeb

Não é pragmático fazer poesia, nem colher flores, nem bordar guirlandas ou fantasiar.

Não é pragmático viajar ou fazer listas de presentes.

Pragmático é trocar a lâmpada quando está queimada, é comer de pé para matar a fome. É parar de chorar quando não se tem motivos. É ser experiente com as facas, com os instrumentos, é saber cortar uma carne sem me perder em metafísica.



Escrito por Cris-Cléo-Val-Mari-Gabi-Edu às 19h06
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A palavra do dia 09 de novembro foi Camiseta

 

Por Sócrates Santana

 

- Como é rapaz, camiseta o quê?

- Kamikase.

- Humm.

- Eram japoneses que durante a segunda guerra mundial se lançam contra o alvo.

- Colé, meu irmão. Deixa de conversa.

- É sério. Depois que os aviões perdiam o poder de combate, eles se lançavam contra o inimigo.

- Eu tava precisando de uma "camiseta" deste para acabar com a boca de fumo lá na rua.

- É kamikase.

- Foi isso que eu falei.

- Eles acreditavam que eram ventos divinos.

- O cara mata não sei quantos e ainda diz que é divino. Tê dizendo que é conversa.

- Na verdade, o termo só pode ser utilizado pelos japoneses.

- Como é rapaz, eu não posso usar o "terno" porque. Se é uma "camiseta", porque eu não posso usar? Todo mundo usa, você usa e essa história agora que só japonês pode utilizar. Como é rapaz, tá tirando onda comigo, é, não tem medo de morrer não? Se liga, mane.

- Não é isso. Que negócio de "terno" que nada. O termo só pode ser utilizado pelos japoneses porque numa guerra entre Coréia e Japão, em 16 de agosto de 1281, a armada foi destruída por um tufão, que acabou com a metade dos barcos e dizimou grande parte dos homens.

- Sim e porque eu não posso usar o terno deles?

- Os japoneses atribuíram estes dois acontecimentos milagrosos a "ventos divinos" (kamikaze). Tal fato contribuiu para a crença de que o Japão era uma terra protegida pelo divino (shinkoku). Por isso, o termo só cabe aos japoneses.

- Como o terno não cabe em mim se nem provei?

- Eu desisto.

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Por Gabriela Ramos Rosa

Desbotada, puída, rasgada. Mofada e jogada dentro da gaveta feito um trapo.

Mas que não, nunca vai virar pano de chão ou vai pro lixo ou ser doação na igreja.

Esta camiseta não.

Ela te envolveu o corpo por tempo demais. Tem ainda teu suor em cada fibra amolecida.

Tem lágrimas minhas, bem ali, na altura do ombro.

Tem a mancha inconfundível do respingo de cândida, descuido meu.

Um furo de traça, que estas malditas estão em todos os lugares.

E os anos do que achamos que seria pra sempre.

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Por Cristina Ancona Lopez

Eu tinha uma verde musgo de que nunca me esqueci porque me sentia bonita com ela. Era gostosa, combinava com a cor da minha pele e cabelos que naquela época eram mais claros, não sei porque a vida escurece os cabelos.

 

A tua era gostosa. Usei uma branca em um dia, uma listrada no outro. Você disse: pega aquela que você quiser e eu disse: quero uma bem grandona!

 

Camiseta é coisa gostosa de usar, eu tenho uma gaveta cheia, algumas uso de dia, outras são para usar de noite, tenho as que uso para trabalhar, as que uso para passear, as que uso para ficar em casa. Tento não misturar mas vivo misturando tudo e quando vou sair aquela que era para sair já ficou gasta de tanto usar em casa.

 

A listrada era grande como eu queria, ia quase até os joelhos

 

Eu abro a gaveta e vejo tantas cores... Às vezes não sei qual escolher porque cada ocasião pede uma e a gente sempre precisa daquela que não tem.

 

Você gostou de me ver com a listrada e me abraçou aquele abraço forte que me fazia pequena.

 

Hoje eu precisava de uma mais larguinha, não achei, acabei colocando um vestido. Tenho de comprar uma de cor forte para a passagem do ano. Não quero branca. Quero um ano cheio de cor, quero começar colorida.

 

Passei o dia com a tua. As minhas nem usei...

 

Arrumando a mala para meu fim de semana solitário, não sei qual colocar. Deveria colocar uma que usei na praia no ano passado mas não tenho vontade, coloco uma nova mas tiro da mala, vou deixar para outra ocasião. Abro a gaveta e não acho a cor que quero.

 

Coloco qualquer uma, ninguém vai ver.

 

Só me lembro da tua, só me lembro da tua, queria a tua.

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Por Mari de Almeida

Na camiseta que usei na micareta,

tinha uma frase que não me lembro.

Mas a memória guardou aquele cheiro

de teu corpo suado grudado no meu,

no amasso apressado, atrás do trio elétrico,

que só não vai quem já morreu.

Na micareta, de camiseta,

foi pra você que tudo em mim aconteceu.

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Escrito por Cris-Cléo-Val-Mari-Gabi-Edu às 20h07
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A palavra do dia 08 de novembro foi Intervalo

 

Por Gabriela Ramos Rosa

- Teodoro toma, guarda meus silêncios.

(Teodoro pensa, entre irritado e aflito, o que será que Ana quer dizer com aquilo...o ar pesa).

 

- Que há, Ana?

(Ana suspira, entre enfado e desafio, acostumada com a racionalidade prática dele, dos homens em geral, querendo resolver tudo rapidamente).

 

- Você guarda, Teo?

(Teodoro relaxa...ah, o código dela de que 'não é tão grave' assim: 'Teo'. Ela só precisa ouvir que sim).

 

- Claro Ana, sempre.

.... (intervalo de tempo, onde Teodoro olha Ana com cara de homem que gosta da natureza confusa e hormonal das mulheres. Enlevo e condescendência misturados à ternura).

 

- Preciso dormir agora, você fica?

(Doce na voz de Ana, satisfeita por sentir Teo desarmado e seu, sem querer entender ou resolver seu 'problema' - que nem ela mesma sabe qual é, se de fato existe...)

 

- Estou aqui Ana, dorme.

(Teo estende a mão e toca os cabelos longos daquela mulher linda que só precisa ouvir sins, vez ou outra, quase sempre. Uns medos que ele nunca entendeu mas sempre vence, por ela. Amor).

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Por Cristina Ancona Lopez

Intervalo de ópera, de concerto, de teatro. Antigamente até cinema tinha intervalo.

Momento de correr para um café sempre cheio de filas, um copo rápido do pró-seco na Sala São Paulo ou correr para o banheiro, gente para todo o lado.

Intervalo de programa na televisão às vezes propagandas demais, hora de correr para buscar a pipoca, a coca cola.

Beijos no intervalo, casal abraçado no sofá, assistindo filme no frio.

Intervalo entre filhos.

Intervalo de tempo, entre um acontecimento e outro, entre um pensamento e outro, entre um trabalho e outro.

Intervalo na reunião que se arrasta, intervalo de férias, intervalo de ócio nem sempre criativo.

Intervalo entre amores ou entre o mesmo amor.

É possível também ser o próprio intervalo, aquele que preenche um, que vem e vai como se nem tivesse sido. Eu já fui um.

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Por Sylvia Loeb

Coexistíamos na respiração um do outro,

Aderidos, encravados nas peles sem intervalo,

No tempo parado do ar rarefeito.

Morreríamos sufocados

Nos túmulos de nossos corpos?

- ou abriríamos uma frincha, fenda, abismo

para sobreviver?

 

Preferimos a morte.

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Por Sócrates Santana

Quarenta e cinco minutos. Os jogadores vão para os vestiários. O país por uma fração de segundos não é governado, enquanto a faixa presidencial transita entre o ex e o novo chefe do poder executivo. Por duas curvas Felipe Massa foi campeão e vice. Perdi o pôr-do-sol por meia hora. O sinal estava verde, mas bastou um carro passar para ficar amarelo e o radar detectar a infração. Os jogadores retornam. O juiz reinicia a partida. Não cheguei em tempo para assistir o último capitulo da novela. E a pauta caiu por causa do engarrafamento. Até as vinte e trinta a matéria era exclusiva. Um minuto se passou e o ministério estava formado. Noventa minutos do segundo tempo, o título era certo. Um acréscimo de um minuto  mudou tudo. Um novo presidente, um novo campeão. Enquanto isso, o rei da Inglaterra morre e o povo grita, viva ao rei. 

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Mari de Almeida

Não me peça nada, não pergunte nada.

Quero apenas curtir este espaço que cavei.

Dei uma de profeta e dividi o tempo ao meio -

entre o antes e o depois.

Vou descansar as pernas largando-as ao vento

E pensar num nada tamanho,

que me perco nesse tanto de vazio.

Não me fale nada, não exija nada.

Sonho apenas em respirar fundo e não olhar para frente

Dei uma de atleta para correr de meu passado e futuro

Entre o que fui e o que sei que um dia serei

Quero descansar as mãos soltando-as ao largo

E repousar desejos num buraco infinito

que me leva a dimensões que desconheço.

Não entenda nada, não questione tudo.

Espere o próximo ato.

Agora, estou no meu intervalo.

 



Escrito por Cris-Cléo-Val-Mari-Gabi-Edu às 11h56
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A palavra do dia 05 de novembro foi Profusão

 

Por Sócrates Santana

O que é o sertão? Uma fartura de mundo. O que é uma favela? Uma abundância. O que é um mendigo? Esbanjamento.  O que é uma feijoada? Um desperdício. E os livros? Uma profusão de idéias.

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Mari de Almeida

Como cabe tudo isto nestes 48 quilos distribuídos em 154 centímetros?

Uma profusão de idéias, de medos, de dúvidas, de desejo, de traumas, de encontros, de coragem, de tramas, de alegria, de malandragem, de crueldade, de paixão, de piedade, de preguiça, de má vontade, de energia, de camaradagem, de ousadia, de covardia...

Pequenos frascos sem fim.

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Por Cristina Ancona Lopez

Foi-se

o que abalou

sem transtornar

o que acrescentou

sem perguntar.

Deixou profusão

de sinceridade,

de amizade

de saudade.

 

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Por Sylvia Loeb

As nicotinas do mar têm cheiro de ostra.

Comi  maracujá e o sangue dele misturou com o meu.

O por do sol está melífluo.

Isso tudo ele disse para mim.

E mais isso:

Hoje tem miríades de alegria no seu sorriso.

Amo você inteira, exclusive essa pinta negra, e passou o dedo devagar por ela.

E mais isso ainda:

Seu olhar emana profusão de saudade.

 

Me entreguei.

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Por Gabriela Ramos Rosa

Ela respirava num ronco medonho.

Triste de ver que a morte lhe chegasse assim - a vida lhe negando ar, o essencial tão ao alcance.

O tempo se arrastava sofrido, no compassado de seu insistente e difícil respirar.

As lágrimas e orações enchiam o quarto. Não de esperança, de aceitação.

Ver a sua respiração cessar e sabê-la morta me impressionou.

Nada de violento ou feio, mas saber que naquele exato instante ela já não estava mais ali, me feriu.

Prometi que lembraria dela pensando na profusão de coisas boas que ela viveu e deixou.

Mas de noite, na dificuldade pra pegar no sono, me vinha seu rosto morto - ainda que sereno, eu o sabia revolto por a vida lhe negar ar.

 



Escrito por Cris-Cléo-Val-Mari-Gabi-Edu às 19h40
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A palavra do dia 04 de novembro foi Debutante

  

Por Cristina Ancona Lopez

E então o moço me segurava com braços fortes e eu me abandonava ao vai da musica, ele me conduzindo eu seguindo sua condução firme, e rodopiávamos, redondo, forte, sorrindo sempre, lembro a sensação ímpar de, com ele, rodopiar. Nunca houve igual.

E então dançávamos de rosto colado só quem namorava podia e nos agarrávamos a cada oportunidade de ficar sozinhos, abraços escondidos, nos escuros, nos becos, no carro, beijos que duravam horas sem cansar.

E então me lembro das cartas e bilhetes carinhosos, da musica que compôs para mim e da rosa que chegava todos os meses, a cada mês uma a mais até que aos três anos de namoro recebi três dúzias e depois não mais.

E então vez em quando ainda o vejo, um aniversário, uma noite de autógrafos, um enterro, um senhor, cintura alta, nunca jeans, ainda as mãos bonitas e ainda o sorriso é o do menino que ficou lá atrás.

E então não foi com ele que debutei a entrega total, a paixão louca, o casamento que já acabou, os filhos com quem vida nova a cada dia, os amores fortes e completos que vieram e se foram, a vida que vem e que vai e o meu novo estar no mundo como pessoa curiosa e sempre renovada.                                                                                                                                                                                                                                                                                  

Mas com ele e só com ele fui debutante. Como só naquele tempo se debutava.

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Por Sylvia Loeb

Feinha, magrinha, branquela, cabelo desbotado e ralo, peitinho encovado.

Um dia ele olhou pra ela, no outro também. Começaram a andar juntos, não falavam muito, tímida que era, feia que se sentia.

Feinho, magro, escuro, cabelo ruim. Olhou para ela e ela pra ele. Começaram a sair juntos, pouco falavam, faltava assunto.

Um dia debutaram, um dentro do outro, muito gostoso.

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 Por Cléo Araújo

Os canais de televisão - todos os três que pegavam em Marília - passavam notícias sobre a coisa mais terrível e improvável que eu já tinha visto na TV ao longo de meus quase quinze anos de vida: um país do qual eu nunca havia ouvido falar antes - um tal de Kuwait - havia sido invadido pelo Iraque (esse sim eu já conhecia por causa do Sadam). O problema, pelo que entendia, era petróleo. Mais o excesso do que a falta dele. E então uma guerra havia começado - uma guerra de verdade, com soldados, tanques e mísseis (até então a única guerra que eu havia presenciado tinha sido a Fria, que não contava com esse tipo de cenário cinematográfico, onde todos os projéteis pareciam ser verde-cintilantes). A situação se agravou quando os Estados Unidos resolveram comprar a briga e defender o tal Kuwait. Eu simplesmente não conseguia entender o que é que os Estados Unidos tinham a ver com aquilo tudo, mas meu chute era que era culpa do petróleo. Eram "Scuds" e "Patriots" sendo lançados de um lado para o outro, perdia o sono ao pensar na possibilidade daquela se transformar na Terceira Guerra Mundial. A terceira e a última, segundo previa Nostradamus.

Mas o meu problema não era esse. Meu problema era que eu nunca havia beijado ninguém na boca.

Já tinha dado uns selinhos brincando de "salada de fruta". Mas agora eu era mulher, queria beijar de verdade, se possível de língua. E a coisa não era tão simples quanto parecia. Aliás, não parecia simples coisa nenhuma. Não era lá a menina mais bonita da turma, não era nem muito alta, nem muito arredondada. Sempre achei que tivesse um certo charme, mas não me achava bonita. Para mim, eu era simplesmente magra e cabeluda.

Era assim, a vida, antes do meu debu.

Medo do fim do mundo, vontade de beijar de língua e inveja de cabelo liso.

Ah, e eu tinha, sim, um sonho: queria ter nascido no Rio de Janeiro.

Nunca entendi o porquê.

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Por Gabriela Ramos Rosa

Aos 15 anos eu não era ninguém.

Não sei se hoje, aos 37, já posso me considerar alguém.

A verdade é que a gente nunca pára de crescer.

E mesmo quando morre, mesmo que bem velhinho, ainda é uma soma de faltas.

Impossível conhecermos o mundo inteiro, ler todos os livros que existem, assistir a todos os filmes, cantar todas as músicas.

Inviável abarcar o antigo, o novo, tudo, nesta velocidade vertiginosa em que a nossa existência passa.

Seremos sempre incompletos, imaturos aqui e ali, despreparados. Plenitude não se alcança, nunca.

Não fui debutante aos 15, não sou agora, não serei. Não estou pronta - nem pra mim, nem pra sociedade.

Mas já não tenho as aflições de menina assustada querendo rodopiar numa valsa nos braços do menino mais lindo do colégio.

Nunca quis, na verdade. O menino mais lindo do colégio nunca me olhou; uma valsa com ele, jamais!

Mas isso (e muito mais) hoje, não significa uma ruga em meu rosto, nem uma cicatriz profunda.

Hoje me sei e me gosto assim mesmo, incompleta. Ignorante de coisas que sequer passaram perto do meu quintal.

Cuido do pequeno jardim que me cerca, imenso pra mim, nadica pro mundo globalizado.

Eu gosto, e estou bem feliz com os meus girassóis.

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Por Sócrates Santana

As duas meninas estavam felizes. De frente da penteadeira, as sardas, as mechas louras e os dentes brancos esboçavam o contentamento com os anos que chegam. No quarto dos fundos (a senzala moderna) a filha da empregada brinca com as bonecas da filha do patrão. O pai abraça a filha, que corre eufórica pelo corredor, enquanto a mãe sorrir emocionada e arruma a filhinha para o baile. A empregada faz o mesmo, ajeitando os laços lilases no encrespado cabelo da debutante de quintal. As duas descem juntas as escadas. A filha do patrão na frente e a amiga dos fundos atrás segurando o véu. Após o cessar da música, os convidados estão exaustos de dançar e beber. Alguns bebem até demais, como o patrão, que arranca o vestido da filha da empregada na marra. Enquanto a filhinha do patrão está aos soluços no quarto do namorado, a filha da empregada chora silenciosamente no quarto dos fundos. No hospital, o anestesista prepara as agulhas, enquanto a enfermeira massageia a barriga da paciente. Na emergência, uma jovem morre de hemorragia, sem direito a atendimento.      

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Por Mari de Almeida

Quando eu fizer meu baile de debutante vou convidar todos vocês.

Verdade! Aos 46 anos ainda não realizei o meu.

Quero debutar como pessoa melhor e mais inteira.

Ou como uma mulher madura que sabe bem o que quer.

Talvez também precise esperar pelo grande amor - acho que ainda não veio.

Se veio, deixei escapar, deixei perder-se de mim... coisas de menina boba.

Falta-me também debutar como mãe.

Embora o seja há 17 anos, ainda não sei bem como agir, o que falar, o que pensar.

Mas um dia eu aprendo, amadureço, abraço quem eu mereça.

Um dia coloco o vestido rodado, fico no centro da sala e começo o baile.

Por enquanto estou aqui, ainda menina, tentando dar passos simples - dois pra lá, dois pra cá - preparando-me

para outros tempos de tangos, rocks e até um bom samba de raiz.

Mas não demora, não, vocês receberão o convite...

Separem o traje, enquanto eu me aprendo e cresço aqui, no meio do salão.



Escrito por Cris-Cléo-Val-Mari-Gabi-Edu às 17h53
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A palavra do dia 02 de novembro foi, na verdade, uma frase:

"Meu problema é só de madrugada, de dia fico normal."

 

Por Sylvia Loeb

Temos 3 filhos lindos: João Antonio tem um probleminha de drogas, mas isso é passageiro. Conversa e canja de galinha, essa a receita. Infalível. Foi o psiquiatra do posto quem disse. Minha filha, Joana Maria, linda, quatorze anos, conversei, conversei, contei que ela ia ficar mocinha, precisava tomar cuidado, sabe o que estou dizendo? Já sei mãe. Assustei. Tem que tomar cuidado, já sei mãe, já sei. Assustei de novo. Há tres dias amanheceu grávida, chorou ela, chorei eu, meu marido pos a culpa em mim. Tá certo ele, quando alguma coisa não dá certo em casa a responsabilidade é da mãe. João Pedro, o caçula, lindo, lindo, o que me preocupa é quem vai cuidar dele quando eu morrer? É ingênuo demais, puro demais, Deus escolheu ele para uma missão de caridade no mundo, mas tem que ter alguém para cuidar dele. Minha vida é assim, rica de acontecimentos. Meu problema é de madrugada. Me dá um aperto na garganta, parece que alguma coisa quer sair mas não consegue, fica presa ali. Não quero acordar meu marido, fico nessa agonia, segurando nem sei o quê. Meu problema é só de madrugada, de dia fico normal.

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Por Mari Almeida

Enquanto à noite os gatos são pardos,
eu sou preguiça embolada no velho pijama esgarçado.
Enquanto uma mão lava a outra,
eu enxugo a alma nas toalhas tecidas nas teias
Enquanto mais vale um pássaro na mão do que dois voando
eu me jogo sem asas em aventuras sem pé e mula sem cabeça
Enquanto em casa de ferreiro o espeto é de pau
eu vivo numa cabana de algodão salpicada de lantejoulas.
Mas tudo isso é assim da meia-noite até o sol se fazer brilhar.
Porque meu problema é só de madrugada, de dia fico normal.

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Por Gabriela Ramos Rosa

Meu problema é só de madrugada, de dia fico normal.

Misturada à mediocridade nossa, ninguém há de notar.

Disfarce perfeito pra aquela que sou quando ninguém me vê, nem me imagina. E posso tudo. Posso eu.

Problema?

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Escrito por Cris-Cléo-Val-Mari-Gabi-Edu às 09h49
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A palavra do dia 01 de novembro foi Jornalista

Por Sylvia Loeb

Cão de guarda da sociedade, eticamente superior, o que o regia era o princípio da responsabilidade social. Compromisso com a verdade, lealdade com os leitores - cidadãos a quem devia respeito -  esses os valores que o pautavam. Submetido apenas à própria consciência, que lhe ditava os rumos a tomar, vigilante independente dos poderosos. Corajoso, destemido, temerário.

Virou trapezista.

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Por Sócrates Santana

-         Quem?
-         O jornalista!
-         O quê?
-         Não presta!
-         Como?!?
-         Não vale nada mesmo!
-         Quando?
-         O tempo todo!
-         Onde?
-         No Brasil!
-         Por quê?

Faz parte da profissão!

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Por Gabriela Ramos Rosa

Era tão árido e quente que remetia à descrição do inferno que tinha ouvido desde a infância.
A boca já ia mais que seca, começava a amargar. O estômago se retorcia - medo, fome, desespero.
Os rostos negros e maltratados, de olhos já sem vida, íris turvas e murchas. Falta de tudo.
Crianças miúdas feito apêndices, bonecas macilentas caminhando pro inerte, o desfalecer.
A morte à espreita. A vida às moscas, ao abandono, aos olhos fechados de Deus.
A matéria emocionaria, ganharia prêmio, rodaria o mundo. Era preciso mostrar, gritar, acordar aos homens.
O idealismo deu lugar a um cansaço doído, um nó sofrido de impossível desatar.
E o jornalista, mudo, chorou.

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Por Cristina Ancona Lopez

Eu vi um morro que não era mais morro e não consegui ver as casas que havia embaixo. Disseram que eram 3 e mais  duas revendedoras de automóvel, que não estavam mais lá. Só vi a terra e os tratores que tentavam remover tudo.
Não sei aonde eram os caminhos nem se havia quintal ou jardim. Não sei se o morro despencou de dia ou de noite. Só vi o lamaçal, alto, denso, escorregadio, parecendo ter vida.
Parei e olhei. Vidas acabadas, trabalho destruído, tudo virou ontem. Para a frente só o recomeçar de quem continua, sem o que ficou para trás, sem quem ficou para trás.
Estive lá. Chorei, de que adianta... Fiz pouco, podia fazer mais... Vi gente fazendo muito, gente mais gente do que eu.
Fiquei pequena demais.
Estou soterrada pelas inúmeras coisas desnecessárias que tenho em casa e pelos meus sentimentos que teimam em desmoronar perante as intempéries da vida.
Voltei
Nem escrever sobre isto sei. Fosse jornalista, saberia?

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Por Mari de Almeida

Ele queria dar só boas notícias.
Sonhava em mudar o mundo.
Mas viveu "na marrom", perdeu rumos.
Achava-se Deus e escrevia como o Diabo.
E saiu estampado em manchetes.
"Matou amante e voltou à redação."

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Escrito por Cris-Cléo-Val-Mari-Gabi-Edu às 21h10
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A palavra do dia 28 de novembro foi Alumbramento

Por Sylvia Loeb

Na terra negra e escura, a semente é introduzida. Noites e dias se alternam em claro e escuro, em umidade e deserto, frio e fogo. Animais acostumados a viver nas trevas emanam sucos e calores e se aproximam dessa coisa que começa a germinar, que se move em contrações vagarosas  de expansão e retração, sístole e diástole. Respira. A força penetra, percorre o caminho que vai romper a carne, a terra, em deslumbramento com a vida que se fez por milagre!

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Por Gabriela Ramos Rosa

Alumbramento é bom.
Estado de bobeira constante, risada frouxa, espírito leve.
Coisa de criança inocente que a gente perde porque a vida toma. À força.
É voltar a ter esperança, acreditar em história de amor que dá certo, alma gêmea e casa de cerca branca de comercial de margarina.
Até chorar à toa porque é muito bom pra ser verdade.
Descobrir que dá certo, que tem aquele alguém com quem você sempre sonhou.
Aposentar a dúvida e deixar vir uma pontinha de satisfação por achar sim que, enfim, você merece tudo isso. E mais.
É bom, é muito bom.
E sigo alumbrada achando que talvez Poliana pudesse ter alguma razão.

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Por Mari de Almeida

Queria definir-te, e há 28 anos.
Desde que por mim passaste e deixaste um beijo.
De lá para cá, penso-te vez ou outra,
e não esqueço de teus olhos verdes,
tuas mãos calejadas, mas dóceis,
teu sorriso gentil e tuas faces vermelhas.
Menino em tamanho de homem,
homem em alma de menino.
Foste meu primeiro suor frio,
o coração a bater descompassado,
o tremor nas mãos a tomar as pernas.
Sim, achei-te em uma definição!
Foste meu primeiro alumbramento.

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Por Sócrates Santana

Na terra negra e escura, a semente é introduzida. Noites e dias se alternam em claro e escuro, em umidade e deserto, frio e fogo. Animais acostumados a viver nas trevas emanam sucos e calores e se aproximam dessa coisa que começa a germinar, que se move em contrações vagarosas de expansão e retração, sístole e diástole. Respira. A força penetra, percorre o caminho que vai romper a carne, a terra, em deslumbramento com a vida que se fez por milagre!



Escrito por Cris-Cléo-Val-Mari-Gabi-Edu às 15h53
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